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A zona está sem música

Como os antigos cabarés foram engolidos pela modernidade

Quem viveu as décadas de 1980, 1990 ou até o início dos anos 2000 provavelmente guarda na memória uma imagem quase cinematográfica dos antigos cabarés: construções afastadas da cidade, uma estrada de terra, uma fachada simples e, quase sempre, uma luz vermelha acesa anunciando discretamente o funcionamento da casa.

Hoje, essa imagem praticamente desapareceu.

Os antigos prostíbulos não acabaram. Apenas acompanharam a evolução da sociedade. A famosa “zona” mudou de endereço. Saiu das periferias e das estradas, aproximou-se do centro das cidades e adotou uma postura muito mais discreta. Sem luzes chamativas, sem placas extravagantes e, muitas vezes, instalada em imóveis que passam despercebidos por quem caminha na calçada.

A discrição, aliás, tornou-se um dos maiores atrativos.

Não é raro que moradores estranhem a movimentação e acionem a polícia. Quando a viatura chega, porém, encontra um estabelecimento regularizado: mulheres maiores de 18 anos, equipe de segurança, alvará de funcionamento, AVCB do Corpo de Bombeiros, extintores de incêndio, saídas de emergência sinalizadas, portas corta-fogo e estrutura adequada para receber clientes.

Mudaram os prédios, mas algumas regras continuam rígidas.

Quem provoca confusão, desrespeita funcionários ou causa qualquer tipo de transtorno dificilmente ganha uma segunda oportunidade. Em muitas casas existe uma espécie de “lista suja”. Entrou nela, dificilmente volta a atravessar a porta.

Curiosamente, existe outra regra bastante conhecida:

Entrar embriagado é proibido.

Sair embriagado… isso já fica por conta do cliente.

A morte da velha máquina de músicas

Talvez uma das mudanças mais simbólicas seja justamente aquela que inspirou este texto.

A antiga máquina de músicas — aquela jukebox cheia de botões, luzes coloridas e fichas metálicas — praticamente desapareceu.

Em seu lugar surgiu um totem com tela touch, catálogo digital e pagamento por QR Code (Pix).

A tecnologia resolveu um problema e criou outro.

Antigamente bastava colocar uma ficha e escolher uma música. Hoje, muita gente pensa duas vezes antes de fazer um Pix que poderá aparecer no extrato bancário.

Ainda existem os mais desavisados.

Mas muitos preferem deixar a trilha sonora por conta da casa.

Existe, porém, um detalhe que costuma arrancar boas risadas de quem frequenta esses lugares.

Na fatura do cartão, o estabelecimento dificilmente aparece com um nome sugestivo. Em muitos casos surge algo absolutamente comum, como “Lanche da Enza”.

O nome discreto talvez salve algumas explicações… principalmente quando alguém resolve conferir o horário da compra.

A curiosa história do “Campari”

Entre as muitas histórias que circulam nesses ambientes, uma das mais curiosas envolve uma bebida bastante famosa.

Durante muitos anos, algumas casas vendiam mais de dez garrafas de “Campari” por noite.

Ou pelo menos era isso que os clientes imaginavam.

A cena era quase sempre a mesma.

A moça sorria e perguntava:

— Você paga um Campari para mim?

O cliente, tentando ser gentil, aceitava imediatamente.

O barman, já experiente, pegava outra garrafa.

Não de Campari.

De groselha.

Visualmente parecida quando servida em determinados copos, ela permitia que a acompanhante permanecesse sóbria durante toda a noite, ao mesmo tempo em que ajudava a movimentar o caixa do estabelecimento.

Talvez seja justamente daí que tenha nascido aquela velha lenda de que “mulher de cabaré aguenta beber mais do que qualquer homem”.

Na prática, muitas vezes ela nem estava bebendo álcool.

Até a música virou algoritmo

Nem mesmo a trilha sonora escapou da tecnologia.

Os aplicativos aprenderam a observar o ambiente.

Se predominam músicas de rock, dificilmente o sertanejo aparece entre as primeiras sugestões. Se a preferência é pagode, o sistema esconde o heavy metal. O algoritmo passou a fazer automaticamente aquilo que antigamente dependia da sensibilidade de quem controlava a máquina de músicas.

O curioso é que, justamente quando ficou mais fácil escolher qualquer canção do mundo, menos pessoas parecem interessadas em escolher.

Talvez pelo receio de deixar rastros digitais.

Talvez porque a conversa tenha se tornado mais importante que a música.

E o bolo no pote?

Existe também uma observação bem-humorada que circula entre frequentadores desses lugares.

Depois que a palavra “job” se popularizou nas redes sociais, a venda de “bolo no pote” parece ter diminuído bastante.

Coincidência?

Provavelmente.

Ou talvez seja apenas mais uma daquelas brincadeiras que ajudam a contar como os costumes mudam ao longo do tempo.

O mundo muda. As histórias permanecem.

Os antigos cabarés perderam a luz vermelha, trocaram as fichas pelo Pix, substituíram a jukebox por telas digitais e aprenderam a conviver com aplicativos, redes sociais e algoritmos.

Mas continuam sendo lugares onde se acumulam histórias curiosas, personagens inesquecíveis e situações que dificilmente seriam inventadas por um roteirista.

A música pode até estar mais baixa.

Mas o espetáculo da natureza humana continua exatamente o mesmo.

E, convenhamos…

Toda boa história merece uma boa trilha sonora.

Mesmo que hoje ela venha de um QR Code, e não de uma velha vitrola.


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