Cuide você da sua paz
Lúcia foi a esposa perfeita por 40 anos. A da camisa passada, do jantar na mesa, da dedicação integral. Ela viveu para o Rogério. Mas a gratidão dele veio em forma de punhalada. No dia do velório dele, enquanto Lúcia chorava sobre o caixão, uma mulher mais jovem entrou na capela segurando a mão de dois meninos. Eram a cara do Rogério.
Ali, diante de todos, a vida de Lúcia desmoronou. Ele tinha outra família. Ele tinha outra casa. Ele tinha outra vida. O luto de Lúcia virou ódio instantâneo. Ela não chorou mais de saudade, chorou de raiva. Passou os últimos anos de sua vida amaldiçoando o nome dele, desejando que ele estivesse pagando caro no inferno. Ela dormia e acordava repetindo: “Eu nunca vou te perdoar, seu canalha”.
Quando Lúcia morreu, o coração dela estava preto de mágoa. Ela fechou os olhos certa de que, como vítima, seria recebida por anjos e levada para um lugar de paz, longe daquele traidor.
Mas Lúcia abriu os olhos num lugar cinzento, úmido e pegajoso. O chão era de lama, o céu era de fumaça. “Deve ser um engano”, pensou. Ela começou a caminhar com dificuldade, o barro segurando seus tornozelos. Foi então que ela ouviu um gemido familiar.
A poucos metros, rastejando na sujeira, estava Rogério. Ele estava deplorável, sujo, chorando, estendendo a mão para ela.
— Lúcia… me perdoa… eu errei tanto… me ajuda… — ele suplicava.
Lúcia sentiu uma satisfação maligna subir pelo peito. Era a justiça divina. Ele estava sofrendo.
— Você merece cada segundo disso! — ela gritou, rindo. — Você destruiu minha vida! Tomara que doa para sempre!
Ela virou as costas para ir embora e deixá-lo ali, apodrecendo na culpa. Lúcia tentou dar um passo em direção à luz fraca que via no horizonte. Mas não conseguiu. Seus pés não saíam do lugar. Ela fez força, puxou, gritou. Nada. Ela estava colada no mesmo pedaço de chão que ele.
— Mas o que é isso? Eu sou a vítima! Eu quero sair daqui! — ela berrou para o vazio.
Um senhor de túnica simples apareceu ao lado dela. Ele não afundava na lama. Ele olhou para Lúcia com severidade.
— Por que eu não consigo andar? — ela perguntou.
— Olhe para os seus pés, Lúcia — disse o guia. — E olhe para o pescoço dele.
Lúcia olhou. Havia uma corrente grossa, feita de uma energia escura e pulsante. Uma ponta estava presa no pescoço de Rogério. A outra ponta estava chumbada no tornozelo de Lúcia.
— Quem prendeu a gente?! — ela se desesperou.
— Você prendeu — respondeu o guia. — O ódio, minha filha, é um elo muito mais forte e resistente que o amor. O amor liberta, o ódio acorrenta. Enquanto você passar os dias alimentando o desejo de vê-lo sofrer, você é obrigada a assistir o sofrimento dele de camarote. Você se tornou a carcereira dele. E o carcereiro vive na mesma prisão que o prisioneiro.
— Mas ele me traiu! Ele não merece perdão! — Lúcia argumentou, chorando de raiva.
— O perdão não é para ele, Lúcia. Ele já está colhendo o que plantou, a consciência dele já é o inferno. O perdão é para você. Perdoar é soltar a corrente. É dizer: “Você errou, mas eu não vou carregar o seu erro comigo”. Enquanto você não soltar essa mágoa, vocês dois vão morar aqui. Juntos.
Lúcia olhou para o marido rastejando. Olhou para a lama em seus próprios pés. Ela percebeu que sua vingança era o seu suicídio espiritual. Ela teria que fazer a coisa mais difícil de sua existência: perdoar não porque ele merecia, mas porque ela merecia ser livre.
Guardar mágoa é tomar veneno esperando que o outro morra. No mundo espiritual, quem odeia caminha de mãos dadas com o odiado. Perdoar não é concordar com o erro, nem virar amigo de quem te feriu. Perdoar é tirar a algema que te prende ao passado. Solte quem te fez mal. Deixe que a vida cuide dele. Cuide você da sua paz.



