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O cientista que vendia sonhos era muito mais atraente do que o cientista que vendia realidade

“Primeiro vieram os shampoos que atuavam diretamente no DNA do seu cabelo. Mas eu não falei nada porque afinal, era só um shampoo. Eu ri muito do assunto com meus colegas do laboratório. Fizemos piadas de que o shampoo devia ser mutagênico, que deveria conter brometo de etídeo (um composto perigoso que atua realmente no DNA provocando mutações), comentamos como as pessoas são ingênuas de acreditar nessas bobagens, e até falamos do analfabetismo científico. Discutimos que se as pessoas soubessem que qualquer coisa que “atua no DNA” é perigosa, ninguém compraria o tal shampoo, e comentamos como as empresas usam a linguagem da ciência para vender. Mas logo voltamos ao trabalho, porque afinal, somos cientistas e temos mais o que fazer. E era só uma propaganda de shampoo. Que mal ia fazer?
Depois vieram as bananas maduras que curam o câncer porque têm fator de necrose tumoral nas manchas escuras. E eu não falei nada, porque afinal, era só uma banana. E novamente rimos muito no laboratório, comentando como as pessoas são ingênuas e acreditam em qualquer coisa que leem na internet. Muito cultos, citamos Umberto Eco, fizemos piada sobre o fator de necrose em célula vegetal, até comentamos a pesquisa do grupo japonês que teria dado origem a mais um mito de internet. Mas logo voltamos ao trabalho, porque afinal, somos cientistas e temos nossas pesquisas para tocar. E era só uma banana. Que mal ia fazer?
Então vieram as dietas detox, e eu não falei nada, porque afinal, era só uma dieta. Outra conversa na bancada do laboratório se seguiu, desta vez com um tom um pouco menos jocoso, um pouco mais preocupado, mas ainda assim nos perguntando como era possível alguém acreditar que ia eliminar toxinas do corpo seguindo uma dieta de frutas? Será possível que ninguém se perguntava que toxinas eram essas? Ninguém entendia qual a função do fígado no nosso organismo? E pior, por que alguém ia acreditar que, eliminando as toxinas que não existem, isso ia provocar emagrecimento? Alguns de nós até se aventuraram e tentaram explicar para a mídia que as pessoas estavam sendo enganadas. Que estavam gastando dinheiro à toa. Ficamos com inveja da quantidade de livros que foram vendidos sobre a dieta detox. Alguém certamente estava ganhando muito dinheiro à custa da ignorância da população. Mas logo voltamos ao trabalho. Era só uma dieta. Ninguém ia morrer de passar alguns dias só tomando suco de maçã com couve. Temos nossas pesquisas para tocar.
Vieram as terapias alternativas. Homeopatia, acupuntura, cura pelas mãos, reiki, cristais terapêuticos. Era tanta pseudociência junta que não valia nem a pena comentar. Exceto por alguns casos extremos, em geral essas terapias só faziam mal para os bolsos das pessoas. E não tinham nenhum grande impacto sobre o andamento da ciência. Ninguém cortou nossa verba. Desperdiçou-se um montante para comprovar o óbvio: terapias alternativas não funcionam. A comunidade até se posicionou quando outros países baniram a homeopatia da rede pública de saúde. Comemoramos. Mas não aproveitamos a onda para pressionar o Congresso a fazer o mesmo no Brasil. Ainda temos faculdades de Farmácia que ensinam homeopatia. Ainda temos a vacina homeopática da dengue sendo distribuída na rede pública de saúde. Mas seguimos com nosso trabalho, porque afinal, as pseudociências sempre vão existir.
Mas aí veio a fosfoetanolamina. A cura do câncer. E o que era pior: ela veio de dentro. Ela nasceu ali, na nossa Universidade. Ninguém viu, e quem viu se calou, porque afinal, era só um louco produzindo umas cápsulas para população local de uma cidade pequena. Mas a fosfo cresceu. E quando eu decidi falar, porque enfim a situação era séria e perigosa, eu procurei minha voz e não encontrei. Minha voz tinha sumido. Eu nem sabia, porque não estava acostumada a usá-la. E quando finalmente consegui falar, ninguém me ouviu. E por que ouviriam? Ninguém sabia quem eu era. Cientistas? Eles só querem mesmo é que a gente fique doente para comprar os remédios que eles inventam. Cientistas brasileiros? Eles não sabem nada, tem que mandar investigar nos EUA. Cientistas? Eles não querem ajudar a população. Eles estão com inveja do único cientista sério, esse que descobriu a pílula do câncer. Esse sim é cientista. Ouvi dizer que ele é professor na USP. Deve saber o que diz.
A população que não sabia o que era ciência, que não tinha como saber porque não foi educada para isso, adotou o “cientista” que sabia falar. Aquele que usou sua voz para fazer demagogia, para ludibriar, para dizer às pessoas o que elas queriam ouvir, porque afinal, quem não gostaria de saber que foi descoberta a “cura universal do câncer”, e, ainda por cima, na forma de uma pílula simples, basta tomar três por dia e pronto. Não precisa de hospital, não precisa de quimioterapia, não precisa de sofrimento. O cientista que vendia sonhos era muito mais atraente do que o cientista que vendia realidade.
Quando eu quis falar, era tarde demais. Era tarde, porque eu nunca tinha falado antes. Eu não construí uma relação de credibilidade com a população. Eu nunca tive a preocupação de mostrar o meu trabalho. De cuidar deles. De dar satisfação para eles do dinheiro que recebo do governo, recolhido dos impostos que eles pagam.
Silenciada pela demagogia política, a comunidade científica toda tentou falar. Mas é tarde. Já fomos todos acometidos pela síndrome de Cassandra. Não temos credibilidade. Ninguém acredita no que temos para dizer. Assim como Cassandra, nós tentamos alertar para o perigo de liberar uma substância que não foi devidamente testada.
Todas as entidades de classe se posicionaram. A ANVISA recomendou o veto à presidente Dilma Roussef. A USP se pronunciou, assim como o INCA, a SBPC, a SBOC, o hospital AC Camargo, e tantos outros. Ninguém escutou.
Calados e desvalorizados por uma população que não entende a importância da ciência e da tecnologia para a sociedade, nos deparamos também com cortes em nossas verbas. Milhões são alocados para a fosfoetanolamina. Milhões são cortados de nossas bolsas e nossos projetos de pesquisa. Já não podemos voltar ao trabalho. Logo estaremos todos desempregados ou fora do Brasil.
Fechem a ANVISA. Cortem as bolsas. Cortem as verbas dos projetos de pesquisa. Deixem o Brasil ser dizimado por uma epidemia que poderia ter sido prevista e contida. Cortem os investimentos na educação. Deixem a população ser analfabeta e ignorante. Voltemos à idade das trevas. Usemos sanguessugas e sangria para tratar doenças. Combinaria perfeitamente com os sanguessugas que fazem ciência no Congresso Nacional. Já não somos necessários. A ciência brasileira está de luto. O Café na Bancada está de luto. Nós não falamos quando foi preciso. E agora não sobrou ninguém para falar por nós.
“Vivemos em uma sociedade extremamente dependente da ciência e da tecnologia, em que quase ninguém sabe nada
sobre ciência e tecnologia. Isso é receita para o desastre.” (Carl Sagan)”
Texto sensacional de Natália Pasternak Taschner, entitulado “O cientista e a síndrome de Cassandra: o dia em que a política me calou.”!
Referências apresentadas pela autora:
(ii) Agradecimento especial ao pastor Martin Niemöller, pelo poema:
“Primeiro vieram prender os socialistas, mas eu não falei nada
Porque eu não era socialista
Depois vieram prender os sindicalistas, mas eu não falei nada
Porque eu não era sindicalista
Depois vieram prender os judeus, mas eu não falei nada
Porque eu não era judeu
Então vieram me prender – e não restava ninguém para falar por mim”.
A Natália também está encabeçando um festival de divulgação científica, o Pint of Science, que tem como objetivo tirar os cientistas da universidade e levar para boas discussões em bares pelo Brasil, com linguagem informal e didática! Conheça mais em: www.pintofscience.com.br

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